segunda-feira, 6 de junho de 2016

Palavras perversas


Hoje quis escrever
Deram-me uma caneta para a minha mão
Deram-me um caderno repleto de folhas com frente e verso
Escrevi, amor , tristeza
Descrevi em poucos versos a tua beleza
Palavras que preenchi na minha folha
Enchi o caderno de rabiscos
O caderno continha belos petiscos
Palavrinhas que arrancam o vosso coração a ferro
Como as minhas mãos que arrancam sem dó as ervas daninhas
Deixo sem reservas o vosso coração
Ficam sem fôlego com os meus versos
Pedem 5 dias de folga
Eu peço férias, peço um iogurte que combata as bactérias que se geram neste caderno e no meu coração em dias de inverno
Hoje escrevi
Me atrevi a desafiar a vida e o vosso coração independentemente da gravidade
A ousadia foi do tamanho do mundo
Mas as palavras não se importam
Elas suportam qualquer perversão
A tua versão é a B
A minha é a A
Mas ambas se complementam
Hoje as palavras se alimentam das tuas curvas e ganham vida
Da forma mais atrevida e perversa
Qual conversa qual carapuça
Basta ler apenas uma palavrinha
Qual varinha mágica qual carapuça
Leiam um verso e sentirão o vosso coração antes disperso do meu
Hoje em inegável atracção
Coração com coração
Cautela com cautela
Qual quê...
Palavra sem vergonha afugenta a clientela
Pau de canela, toda a garina foge 
Tal o sentimento na palavra
Tal o jeito, a forma de cobiça
Até a noviça se sente
O padre até abana a cabeça
Como se o meu gesto fosse impróprio
Mas não foi o próprio
Foram os versos
Foram as estrofes que não se souberam conter
Hoje pago pelas palavras
Hoje peco e o padreco me dá o sermão
Não foi dos peixes, foi de tal reprimenda que perdi a emenda quantas vezes o padre me apontou o dedo
O padre e até a comadre me chamaram de sem vergonha
Mas a culpa foi da poesia
Foi ela que faltou ao respeito ás donas do meu coração
Foram as minhas hormonas que se aliaram ás palavras
Agora para meu espanto vou preso tudo pelo vosso desplante
Quando todas vós é que cometeram um crime
Apalparam com palavras sem jeito as saias das garinas
Foram elas que sussurraram ao vosso ouvido, foram o cupido de uma possível relação entre mim e a garota que me acusou de assédio
Já não há remédio para tais palavras
Mas claro eu é que sou perverso!
Eu é que sou psicopata!
Quando a poesia é que mata com palavras desonestas e alheias á realidade da tua beleza
Mas hoje assumo a culpa
E como forma de arrependimento
Não colocarei mais sentimento nas palavras
Jamais deixarei que ganhem vida 
Hoje faço uma jura 
Hoje pedirei ajuda
Preciso de cura para a minha doença
Pousarei a cabeça sobre a almofada 
Coração quieto, hoje de boca fechada
Hoje morre um coração
Que já só escorre sangue pelas paredes e pelas palavras
Escorre perdão da minha boca
Mas é tarde demais 
Hoje não há palavras
Porque não há poeta
Hoje não há cadeia
Hoje não existem palavras agarradas á tua saia
Eram palavras desenvergonhadas
Hoje sentes a sua falta
Eu também sinto falta
Sinto falta de escrever no caderno as palavras mais matreiras
Tu sentes falta de me chamar gatuno
Ainda abres a janela e gritas, vadio!
Mas eu sou poeta baldio
Não sou ninguém muito menos aqui no céu
Não tenho mais quem seduzir
Basta-me aqui no céu me reduzir á minha insignificância
Visto que na terra só aplaudia essa tua típica fragrância
Que me arrancava confissões do meu peito
As emoções que tomavam conta de mim e que eu passava para as palavras
Não tens noção 
Elas morreram no dia eu que fiz o juramento e faleci
Tu.... não terás mais palavras de cobiça 
Palavras.. em jeito de cortiça
O que queres mais
Não existem palavras
Não existem sinais de natalidade
Pequei e me fiquei com a casualidade perante a morte
Sem mim as palavras, até tu perdeste o norte
Eu era o mote, era a fonte, o horizonte da história
Que se perdeu sem explicação
Deixou o teu coração ao Deus dará
Podem chegar mais palavras de cobiça
Mas jamais chegarão á pouca vergonha das minhas palavras
Jamais terão o porte desejado
Jamais serão suporte ou transporte para chegar á ribalta
As minhas palavras foram tão secas
Que nem as próprias alcançaram a fama
Descalçaram as sandálias e rebolaram na lama
Foram uma perdida de tempo
Não foram o suficiente passatempo para a garota 
E eu não fui consumidor activo
Fui presumidor nocivo
Minhas palavras foram convencidas
Davam a conquista por vencida
E agora uma cobiça em profundo sono como a bela adormecida..

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